Burnout dos médicos e o papel da tecnologia

Por Tymo Nakao publicada em 14/02/2019

Não é novidade que médicos trabalham por longas horas de jornadas extenuantes. A formação é longa, são cobrados aprendizado e aprofundamento contínuos. Uma vez médico, sempre médico. É como se fosse um plantão de 24 horas, sete dias por semana, 365 dias ao ano.

Nós, médicos, sabemos, no detalhe molecular, do efeito nocivo à saúde causado pela falta de sono e pelo ganho de peso, bem como a importância de atividades físicas. No entanto, apesar de sempre recomendarmos uma vida ativa aos pacientes, não é incomum que nós mesmos não tenhamos tempo para essas atividades.

Um estudo do Medscape constatou que 42% dos médicos consideram estar com burnout em algum grau, e 56% respondem que uma das maiores causas é a burocracia excessiva. O burnout dos médicos é um tema pouco discutido. Como um excelente professor nos disse em uma aula de emergência clínica, o mínimo esperado de um médico é muito.

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De acordo com uma pesquisa da seguradora americana The Doctors Company, sete a cada dez médicos nos Estados Unidos não recomendam a carreira aos filhos, sendo que mais da metade pensam em se aposentar da profissão nos próximos três anos, incluindo um terço dos profissionais com menos de 50 anos. É importante ressaltar que a média salarial nos Estados Unidos é superior à do Brasil, mesmo com o ajuste de poder de compra nos dois países.

Uma pesquisa do Annals of Internal Medicine mostrou que quase metade do tempo de um médico é gasto com burocracias e preenchimento do prontuário eletrônico. Outra pesquisa do Annals of Family Medicine constatou o gasto similar de tempo. Mesmo algo essencial como o prontuário eletrônico, se desenhado sem entender o funcionamento da cadeia de saúde e implementado sem considerar a usabilidade, pode se tornar mais uma fonte de estresse.

Se por um lado a tecnologia poderá fazer com que os médicos se concentrem em atender melhor os pacientes, reduzindo a carga de papelada, por outro é importante que ela converse com a verdadeira necessidade dos prestadores, pagadores e pacientes.

É importante que os médicos participem ativamente do desenvolvimento da tecnologia que nos ronda. Por mais que muitos médicos achem que não entendem nada de administração ou de desenvolvimento de produtos, os insights que temos do dia a dia é muito valioso. Desde como se colhe uma história médica até os “perrengues” do cotidiano, correção de bugs e desenho de fluxo de pacientes.

Um dos pontos de atenção, nesse sentido de tecnologia, é a cultura médica. Alguns médicos ainda não se sentem confortáveis quando os pacientes trazem hipóteses diagnósticas ou tratamentos encontrados na internet. De fato, existe muito lixo, para dizer o mínimo, na internet, que fornece mais ansiedade do que empoderamento aos pacientes.

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No entanto, devemos encorajar a busca de informações de fontes confiáveis e permitir uma conversa aberta sobre o tema. Não devemos nos tornar reféns de materiais sensacionalistas, tendenciosos e simplesmente errados. Devemos construir, junto aos pacientes, uma forma de garantir que informações adicionais e corretas estejam em posse deles.

Ao entender exatamente o que a tecnologia atual pode trazer de benefícios a nós, médicos (e a nós, pacientes), podemos fazer parte desse debate e da construção de modelos e sistemas de saúde que possa ser win-win aos seus stakeholders. Convido-os a participar ativamente dessas conversas.