Envelhecimento bem-sucedido

Especialistas falam sobre os impactos das tendências de envelhecimento bem-sucedido na Medicina e como se preparar para esse fenômeno atual.

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Graças ao avanço da Medicina e à maior conscientização das pessoas sobre os cuidados com a saúde, as taxas de longevidade estão disparando quando comparadas com as de natalidade. A partir dessa mudança no panorama mundial, criou-se um paradoxo: todos querem viver muito, mas não querem parecer velhos. Essa revolução trouxe impactos e mudanças na Medicina atual, além de um novo conceito – o de envelhecimento bem-sucedido.

O Brasil, por sua vez, demonstra um ritmo muito acelerado nesse processo. Enquanto países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecer e tiveram muitas décadas para se preparar para esse fenômeno, no Brasil, acredita-se que ele se completará ao longo de 25 anos. Por isso, os médicos que lidam diretamente com esse público precisam estar preparados, em pouco tempo, para o desafio de buscar soluções que atendam as demandas do envelhecimento populacional e tornem seu impacto mais sustentável sobre a sociedade.

Pensando nisso, o americano Robert Goldman, cofundador da Academia Americana de Antienvelhecimento, acredita que o envelhecimento bem-sucedido é sobre prevenção, ou seja, se trata de prevenir as doenças antes de elas acontecerem ou, se ocorrerem, revertê-las. Por isso, ele acredita que a principal maneira de garantir uma boa velhice está no cuidado ao longo de toda a vida, que é feito por meio do que o próprio chama de Medicina Preventiva.

Outro problema de envelhecer sem cuidados, para o médico, está nos custos que isso traz para o Estado. Isso pois, com o número de jovens cada vez menor, não é possível alcançar o equilíbrio econômico e social que garante uma boa vida na terceira idade e por isso, ele acredita que uma das soluções para esse problema passa também pela suplementação de nutrientes.

Atualmente, um dos maiores problemas no processo de envelhecimento é que as pessoas, ao chegarem em uma certa idade, ficam doentes por tempo prolongado e gastam muito dinheiro com a manutenção da saúde. Essa fase é o que o médico chama de “idade de pico”, que representa aproximadamente 60 anos de vida. Para Goldman, a forma ideal é começar a ter doenças crônicas já por volta dos 80 anos, melhorando a qualidade de vida e gerando menos gastos.

Além de prevenir, é necessário também intervir de forma adequada nas doenças já existentes. Por isso, é preciso estar em contato com métodos alternativos e eficazes que atuem sobre as principais doenças da terceira idade: “É preciso intervir de uma forma inteligente. Pode ser com medicina tradicional chinesa, acupuntura, medicina nutricional, precisamos pegar as melhores coisas de cada área da Medicina e colocar em um programa de envelhecimento bem-sucedido”, explica o médico.

Esses métodos podem ser aplicados, principalmente, no tratamento das doenças crônicas, responsáveis pela maior parte de enfermidades nos idosos, como mostra o gráfico:

Gráfico Brasil: proporção de idosos com algumas doenças crônicas (2013)

  • Hipertensão (45,3%);
  • Colesterol alto (17,0%);
  • Diabetes (16,1%);
  • Artrite ou reumatismo (9,7%);
  • Câncer (6,9%)
  • Outras (5%)

Fonte: IBGE /PNS de 2013

Pessoas antigas, hábitos novos

A partir desse cenário, aconteceram mudanças em diversas especialidades médicas. A Geriatria, por exemplo, foi uma das áreas mais impactadas por esse fenômeno, já que em 2011 eram registrados 716 médicos geriatras e, em 2018, existiam 1.817. A médica Ana Cristina Canedo, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Rio de Janeiro, afirma que esse processo de envelhecimento populacional trouxe uma demanda de formar mais especialistas.

Segundo ela, houve o surgimento de novos centros de formação, e a disciplina passou a ser obrigatória e já compõe o currículo de algumas universidades no país. Apesar disso, esse número ainda é muito aquém do necessário e, por isso, a geriatra aponta a importância da capacitação dos médicos da atenção básica na avaliação sistematizada, com posterior encaminhamento dos casos complexos para os serviços especializados.

Outra especialidade que precisou se adaptar aos idosos do século 21 foram os dermatologistas. Embora a área seja treinada para lidar com doenças cutâneas próprias do idoso, agora esses profissionais precisam aprimorar ainda mais seus conhecimentos para atender as necessidades desse público. A dermatologista Flávia Addor acredita que o envelhecimento bem-sucedido passa pela especialidade porque esse sucesso significa, em boa parte, uma preservação anatômica e funcional da pele.

A médica acredita que é nesse contexto que as novas tecnologias aplicadas à Medicina são de extrema importância, já que diversos tratamentos para reduzir os sinais do envelhecimento são realizados por meio de mecanismos tecnológicos. Além disso, Flávia conta que foi possível prever um aumento desse público no consultório, com a constatação da melhora nos indicadores de saúde.

Os cuidados com a saúde na terceira idade muitas vezes exigem resultados definitivos. É nesse contexto que a realização de cirurgias plásticas surge como a solução para insatisfações estéticas dos idosos. Para a cirurgiã Marcela Cammarota, diretora da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, houve um aumento importante na quantidade de cirurgias realizadas nessa fase.

Segundo ela, as pessoas com perfil ativo são as que mais procuram por cirurgias plásticas, e os procedimentos realizados com mais frequência nesse grupo são a plástica de face e de pálpebras. Apesar de ser muito procurada por idosos, a especialidade não foi a mais impactada pelo aumento desse público. Mesmo com um aumento de 2.288 novos médicos em sete anos, a médica afirma que não há nenhuma relação entre esse crescimento e o aumento da expectativa brasileira: “Isso está diretamente ligado ao aumento do número de vagas nas residências médicas ligadas ao Ministério da Saúde e não implica em expansão do mercado de trabalho”, conclui.

A SBGG e o envelhecimento bem-sucedido

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia lançou, no ano passado, um guia de orientações sobre envelhecimento para cobertura jornalística. O documento foi escrito com a intenção de mudar alguns estigmas acerca do processo de envelhecimento e de informar como as pessoas, principalmente os jornalistas, devem abordar essa questão.

Ele conta com conceitos de longevidade, informações e interpretações sobre o Estatuto do Idoso, ética, nomenclaturas adequadas e Os 10 mandamentos da cobertura do envelhecimento, com dicas sobre o que não usar em matérias jornalísticas, a fim de respeitar o idoso, a biografia e a autonomia do personagem.

Confira o documento na íntegra:

https://sbgg.org.br/wp-content/uploads/2018/11/Guia_para_jornalistas_na_cobertura_do_envelhecimento.pdf

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