Entrevista: Ministro da Saúde faz panorama sobre sua gestão

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Em entrevista exclusiva, Luiz Henrique Mandetta conta sobre sua trajetória na Medicina e revela quais são as maiores prioridades e dificuldades da atual gestão

Com passagens pela área de gestão em Saúde e política, após aproximadamente 20 anos de dedicação à Medicina, o ortopedista Luiz Henrique Mandetta foi nomeado ministro da Saúde do Brasil em 2019. Por detrás do cargo de autoridade, o médico revela uma história de experiências e desafios enfrentados para se dedicar à posição no governo. Em uma entrevista exclusiva, o ortopedista contou detalhes sobre sua carreira antes e depois de se tornar ministro e falou sobre alguns projetos que foram colocados em prática, focados essencialmente em carreira médica, como o Médicos pelo Brasil. Outras medidas também têm sido adotadas com o intuito de gerar melhoria em Saúde e conscientização da população e, nessa busca por bons resultados, Mandetta reserva grandes ações para 2020.

Confira, a seguir, a entrevista com o ministro:

DOC: Para iniciarmos a entrevista, gostaria que o senhor contasse como tem sido sua experiência como ministro da Saúde no Brasil e como essa função tem impactado sua carreira como médico.

Luiz Henrique Mandetta: Assumir o Ministério da Saúde, certamente, foi um dos maiores desafios da minha vida. Pude atender diretamente a população, estive à frente da oferta de serviços, fui gestor municipal e pude contribuir com a formulação de políticas para o setor, ao longo da minha trajetória profissional. Estamos diante de um novo olhar para o futuro e grandes novidades, como a terapia genética. Para enfrentar esse cenário que está por vir, mais do que nunca temos que atuar na atenção primária, diretamente na prevenção e na promoção de saúde, com ações que ajudem a impedir o surgimento de doenças.

DOC: Conte um pouco de sua história até alcançar o cargo.

LHM: Concluí minha graduação em Medicina no ano de 1989, pela Universidade Gama Filho (RJ). Logo em seguida, fiz minha primeira pós-graduação em Ortopedia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Nos Estados Unidos, obtive a especialidade de Ortopedia Pediátrica pelo Scottish Rite Hospital For Children, em Atlanta. No Brasil, também fiz outra especialização em gestão de serviços e sistema de saúde pela Fundação Getúlio Vargas.

Em 1993, fui médico no Hospital Geral do Exército e da Santa Casa de Campo Grande. Três anos mais tarde, fui admitido como médico adjunto do Hospital Universitário e atuei, também, como professor do curso de pós-graduação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Fui conselheiro fiscal da Unimed de Campo Grande, entre 1998 e 1999, e, em 2001, assumi a presidência. De 2005 a 2010, fui secretário municipal de saúde de Campo Grande e, entre 2011 e 2018, fui deputado federal pelo estado de Mato Grosso.

DOC: Em seu período de ministério, quais ações colocadas em prática o senhor considera mais importantes para a melhoria do atual cenário da Saúde no país?

LHM: A prioridade, neste ano, foi o fortalecimento da atenção primária, responsável por resolver até 80% dos problemas de saúde da população, além, claro, do Movimento Vacina Brasil, que tem o objetivo de criar estratégias para aumentar a cobertura vacinal da população. O primeiro passo foi a criação da Secretaria de Atenção Primária. Com isso, implementamos o Saúde na Hora, que amplia o horário de funcionamento das unidades de saúde, e lançamos o programa Médicos pelo Brasil, que dá possibilidade de qualificação para médicos e estratégias de atuação em municípios com vazios assistenciais. Também estamos propondo um novo modelo de financiamento, com mais investimentos para melhorar a saúde dos brasileiros.

DOC: Quais são os planos e as expectativas governamentais para o futuro do sistema de saúde brasileiro?

LHM: Neste ano, estamos com um foco prioritário na atenção primária, o que nos ajuda a planejar e a fortalecer o sistema de saúde, principalmente no que se refere à prevenção de doenças e promoção à saúde. Essa base, que se estenderá para os próximos anos, nos permitirá, em 2020, discutir a regionalização da saúde. Acredito também que, para um SUS ainda melhor aos 200 milhões de brasileiros, é essencial a integração de esforços dos governos federal, estaduais e municipais, em parceria estreita com o Congresso Nacional. E isso nós temos feito e vamos continuar fazendo.

DOC: Com grandes responsabilidades surgem grandes desafios. Quais têm sido os maiores desafios encontrados em sua gestão?

LHM: São muitos os desafios, mas os principais são fortalecer cada vez mais a atenção primária, que tem capacidade de solucionar até 80% dos problemas de saúde, e verificar os gargalos a partir desse nível de atenção à saúde. Aqui entram também a vigilância em saúde e a cobertura vacinal em todo o Brasil, para evitar que doenças já erradicadas ou eliminadas retornem à circulação no país, como ocorreu com o sarampo. Queremos uma Saúde com mais serviços, gestão, eficiência, humanização e qualidade no atendimento de nossa população. Uma área firmada nos alicerces da austeridade, essencialidade, transparência e moralidade do gasto.

DOC: Participar do processo de gestão e administração da Saúde pública é uma tarefa que exige muito empenho e muitas decisões. O senhor poderia fazer um balanço do ano de 2019 como ministro?

LHM: Desde que assumi, já foi possível fazer muito. Investimos R$200 milhões para renovar e ampliar a frota de ambulâncias do SAMU 192 em todo o Brasil. Liberamos R$1 bilhão de linha de crédito para reforçar o atendimento nos hospitais filantrópicos, que são fundamentais em procedimentos mais complexos. Fizemos aquisição do medicamento Spinraza, único com registro no Brasil para tratamento de pacientes com atrofia muscular espinhal (AME), além, claro, de ampliar a cobertura vacinal da população contra o sarampo e criar estratégias para aumentar a vacinação de outras doenças.

A atenção primária também está sendo contemplada e reforçada. Criamos a Secretaria de Atenção Primária, que não existia, e o Programa Médicos pelo Brasil, que dá possibilidade de atuação e qualificação para médicos. Os profissionais que entrarem para o programa farão um curso de especialização em Medicina da Família e Comunidade, com supervisão de tutores e, ao final, terão uma prova para receberem a titulação e continuar no programa.

O Médicos pelo Brasil também oferece estratégias de permanência dos profissionais nos municípios, por meio de contratação federal com plano de progressão salarial por tempo de participação no programa. Liberamos, também, R$333,4 milhões para credenciar 4 mil novas equipes na atenção primária. Os desafios são grandes, já conseguimos fazer bastante coisa e ainda faremos muito mais por uma saúde melhor e de qualidade.

DOC: Quais são as principais propostas para o próximo ano e como elas irão impactar o público médico? Há ações que visem à melhoria da profissão?

LHM: Com o Programa Médicos pelo Brasil, queremos atender não apenas a população, mas valorizar também os profissionais que nos ajudam a prevenir e a promover a saúde de quem depende da rede pública. Assim, estamos valorizando o profissional, que, ao longo do programa, pode ter vencimentos acima de R$20 mil, conforme sua progressão e localidade de atendimento.

DOC: Quais são os objetivos do programa Médicos pelo Brasil e com qual dimensão ele se torna uma opção satisfatória para o mercado de trabalho do médico brasileiro?

LHM: O programa Médicos pelo Brasil prioriza a participação de municípios localizados em regiões carentes, ou seja, de difícil acesso, por serem cidades pequenas e longe dos centros urbanos e, também, em localidades vulneráveis, definidas assim por estarem em bairros onde há um número elevado de pessoas que recebem benefícios sociais, como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e benefício do INSS até dois salários-mínimos.

Também oferece estratégias de permanência dos profissionais nos municípios, por meio de contratação federal com plano de progressão salarial por tempo de participação no programa. Além disso, garante a incorporação de profissionais com validação de diploma no Brasil, estabelecendo critérios de qualidade profissional e permitindo o livre-arbítrio. Tudo isso por meio de processo seletivo claro, baseado em mérito, de caráter eliminatório e classificatório. Também teremos meios de monitorar e avaliar a produtividade e a qualidade do cuidado oferecido pelos profissionais à comunidade de maneira permanente, com indicadores de saúde bem definidos. E, ainda, avaliar a satisfação das pessoas com o cuidado recebido.

DOC: O Brasil alcançou, recentemente, um papel de grande reconhecimento e responsabilidade na luta contra a tuberculose. Como será liderar o Conselho da Stop TB Partnership e quais benefícios serão trazidos ao país com a estratégia?

LHM: Com a posse na STOP TB Partnership, o Brasil passa a liderar a estratégia de luta global contra a tuberculose, que é a principal causa de morte por um único agente infeccioso em todo o mundo. No país, o tratamento da tuberculose é ofertado exclusivamente pelo SUS, então será possível ampliar os serviços e atendimentos, além de qualificá-los cada vez mais.

DOC: Por último, o senhor gostaria de fazer alguma consideração sobre outro programa ou projeto do governo que não tenha sido abordado em nossa entrevista?

LHM: O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma conquista e uma responsabilidade de todos nós. Enquanto gestor, não medirei esforços para fazer o melhor possível pelos avanços das políticas públicas, investimentos e ações de saúde. Conto com os médicos para conscientizarem a população a respeito desse objetivo e da importância de não compartilhar fake news, não acreditar em qualquer coisa se não for de fontes confiáveis e vacinar seus filhos, que é a única forma de prevenir uma série de doenças que podem deixar sequelas e até matar. Além disso, manter uma alimentação saudável ajuda a evitar a obesidade e suas consequências, como problemas cardíacos, diabetes e hipertensão. Como disse, a saúde é o bem mais precioso que há, e cabe a cada um de nós cuidar dela da melhor forma possível.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom, Agência Brasil

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