Saúde mental e médicos: como lidar e buscar apoio

Saiba mais sobre como a pandemia tem afetado a rotina dos médicos e entenda a importância de manter a saúde mental em dia diante desse cenário

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A pandemia relacionada à Covid-19 tem impactado a rotina de diversos profissionais da Saúde, seja no âmbito profissional ou até mesmo pessoal. Diante desse cenário, a preocupação com a saúde mental de médicos e trabalhadores da área se torna frequente, já que o desequilíbrio emocional pode provocar uma série de consequências negativas ao profissional e ao atendimento realizado. Por isso, saber como lidar com a longa rotina de trabalho e suas dificuldades é fundamental, assim como reconhecer a necessidade de procurar a ajuda.

Uma pesquisa recente, realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB), com 1.456 entrevistados, revelou que mais de 60% dos profissionais da saúde pública brasileira não se sentem preparados ou não souberam responder se estariam preparados para atuar em meio à pandemia. Dados como esse reforçam a necessidade de atenção à saúde física e mental dos profissionais responsáveis pelos cuidados à população.

Exemplos de transtornos

Para o psiquiatra Luiz Dieckmann, international fellow da American Psychiatric Association (APA), enquanto o sistema de saúde lida com a pandemia de Covid-19, é mais importante do que nunca garantir o bem-estar da força de trabalho médica. “O surto de Ebola que ocorreu na África Ocidental em 2014 é um exemplo de advertência para esse tipo de problema”, relembra.

O especialista também faz questão de citar um trecho publicado pelo British Medical Journal, que diz: “À medida que o sistema de saúde ficou inundado de pacientes, os recursos necessários para proteger os profissionais de Saúde contra infecções se tornaram cada vez mais escassos. No final do surto de Ebola, mais de 50% dos profissionais de Saúde infectados morreram e, dos que sobreviveram, incontáveis ficaram com transtorno de estresse pós-traumático”.

Dieckmann alerta que, mesmo ao tomar todas as precauções, existe uma preocupação em ser exposto ao vírus e espalhá-lo sem saber para pacientes e familiares. “Muitos trabalhadores da Saúde precisam evitar o contato com familiares vulneráveis, causando maior isolamento social. Além disso, o intenso escrutínio da mídia e a falta de entendimento da comunidade, incluindo hostilidade, podem aumentar o estresse”, revela.

Segundo o profissional, sentir-se sob pressão é normal na situação atual, mas essas pressões agravadas podem levar a uma ansiedade mais séria, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e à síndrome de burnout. Por isso, o médico alerta para os sintomas que podem indicar essa última condição e a necessidade de se procurar um especialista em saúde mental.

Clique aqui e veja um vídeo especial com o Dr. Luiz Dieckmann sobre a relação da pandemia com a saúde mental dos médicos.

Saúde mental: sinais de alerta

  • Cansaço excessivo (físico e mental);
  • Dor de cabeça frequente;
  • Alterações no apetite;
  • Insônia e dificuldades de concentração;
  • Sentimentos de fracasso e insegurança;
  • Negatividade constante;
  • Sentimentos de derrota, desesperança e incompetência;
  • Isolamento social;
  • Dores musculares;
  • Problemas gastrointestinais;
  • Alterações na frequência cardíaca e na pressão arterial.

De médico a paciente

Situações de pressão desencadeiam problemas de saúde. Porém não é fácil sair do papel de médico e se tornar um paciente. Nesse sentido, o psiquiatra Fábio Fonseca, psicoterapeuta cognitivo-comportamental, acrescenta que essa é uma questão delicada. “Muitos tendem a ‘normalizar’, minimizar e negar os sinais de adoecimento, seja por medo, preconceito ou desinformação”, destaca.

Segundo o psiquiatra, lidar com o estresse faz parte da rotina e muitos desenvolveram resiliência ao longo de sua formação e anos de experiência. Um  exemplo dessa realidade é apresentado pela psicóloga hospitalar intensivista Mariana Leles, especialista em Psico-oncologia.

Ela conta que, no início da pandemia, acompanhou um intensivista, ao qual já havia sugerido que buscasse avaliação psicológica e psiquiátrica, por apresentar sinais de transtorno obsessivo compulsivo. “Houve uma resistência e naturalização do fato, e, quando a pandemia se iniciou, o risco de contaminação por estar na área de isolamento foi o gatilho para que tivesse uma crise de ansiedade no plantão. E o pior: durante um procedimento de intubação”, relata.

Mariana conta que o foco do profissional estava tão direcionado ao pânico de contaminação, que não conseguia se concentrar no procedimento. “Frente ao primeiro contato com secreções do paciente, o médico apresentou uma crise de ansiedade e teve que ser retirado, exigindo-se um médico de outra unidade às pressas, pois tratava-se de uma intubação de urgência. Isso poderia ter sido evitado”, assegura.

Mariana explica que, no primeiro evento em que as semelhanças começaram a surgir, o medo natural foi substituído pela paralisação e pelo desespero da equipe, situação que tornou o grupo incapaz de oferecer assistência em uma situação de crise. “Temos um exemplo de transtorno mental prévio não tratado, em que os efeitos da pandemia foram o gatilho da crise. O evento gerou sofrimento e colocou em risco o paciente e o profissional”, analisa.

Novos desafios, novas exigências

Apesar de uma rotina em meio à linha de frente de cuidados contra o coronavírus gerar impactos consideráveis ao psicológico de alguns profissionais, a reformulação de atendimentos para o ambiente digital não fica atrás. Com a aprovação da Telemedicina, os médicos precisam se adaptar a novos tipos de consultas e rotinas de trabalho.

De acordo com Fábio Fonseca, se por um lado a Telemedicina facilita o acesso a tratamentos durante a pandemia, ela traz muitos outros desafios para os médicos, que precisam desenvolver novas rotinas e protocolos de atendimento, que podem trazer um estresse adicional. “Os profissionais precisam decidir o que pode ou não ser resolvido em um atendimento à distância, assumir mais responsabilidades e mais demandas por parte dos pacientes, dos planos de saúde e do Conselho Federal de Medicina (CFM)”, detalha.

O psiquiatra acrescenta, ainda, que muito do conhecimento e expertise que já tinha sido assimilado e automatizado precisa ser revisto de forma deliberada e cautelosa. “As consultas on-line podem ser mais cansativas, pois além da fadiga da tela, que exige mais esforço para manter a concentração, ainda é preciso lidar com todas as nuances do contato presencial que são perdidas”, avalia.

O médico, então, evidencia a importância de fatores como o calor humano e a dificuldade em não haver exame físico para rotina do profissional da Saúde. “Todos esses fatores podem ser muito reforçadores para os profissionais, que podem ficar muito mais exauridos após várias horas de consultas on-line”, explica.

Medidas em prol da saúde mental

De acordo com a ONU, garantir a saúde mental dos trabalhadores dos serviços de saúde é um fator crítico nas ações de preparação, resposta e recuperação da Covid-19. Além disso, há uma grande influência do psicológico tanto dos pacientes quanto dos profissionais na relação estabelecida em um atendimento.

Segundo Fábio Fonseca, diversos fatores do dia a dia podem afetar o relacionamento de um médico com seus pacientes e colegas. “Isso significa que um profissional adoecido apresenta uma tendência maior a deixar de escutar seus pacientes, ter ideias pré-concebidas, ser intolerante e inflexível. Parte dos profissionais não consegue lidar com a própria vulnerabilidade e tende a rejeitá-la ou projetá-la nos pacientes e colegas sob forma de hostilidade”, assegura.

A promoção de medidas que garantam auxílio psicológico aos profissionais da Saúde em época de pandemia é essencial. Mariana Leles afirma que, tão importante quanto ter equipamentos de proteção individual (EPIs), é ter profissionais em condições de saúde mental para exercer suas atividades. “Nunca podemos nos esquecer que profissional da Saúde é apenas um papel desempenhado por um humano tecnicamente treinado. Somos passíveis a erros, medos, dúvidas, ansiedades e toda a gama de sentimentos que qualquer outra pessoa manifesta”, destaca.

Portanto, do mesmo modo que a saúde mental pode influenciar positivamente na relação interpessoal e no cuidado ao paciente, o adoecimento emocional pode interferir em questões como discernimento, tomada de decisão e execução de procedimentos técnicos, que colocam em risco todos os envolvidos. “Estratégias de suporte emocional devem fazer parte dos planos de contingência de combate à Covid-19, adaptadas às rotinas, para garantir adesão das equipes”, conclui.

Exemplos de medidas

  • Prestar atenção aos sentimentos e necessidades pessoais durante momentos de intenso estresse;
  • Manter vínculos sociais por meio das ferramentas virtuais ou do telefone;
  • Manter a rotina de sono e uma dieta saudável;
  • Ver as situações sob uma perspectiva realista e não se deixar afetar por notícias falsas;
  • Atualizar-se com informações confiáveis, porém não buscar tais informações de forma excessiva;
  • Evitar o uso de álcool, cigarro e outras substâncias;
  • Fazer meditação guiada, por meio de vídeos ou áudios curtos;
  • Buscar equilíbrio entre tempo individual e tempo compartilhado, descanso e atividades;
  • Praticar atividades de alongamento direcionado ou exercícios físicos com frequência.
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